Eles se mordem de ciúme
Geralmente os cães que demonstram esse sentimento, tão comum entre os humanos, devem ser controlados, para evitar que a vida em família torne-se um tormento

Eles são uns amores. Brincam, lambem, pedem colo e têm todo o carinho retribuído. Mas se percebem que o amor não está sendo dirigido somente a eles, é melhor sair da frente. Os animais de estimação também sentem ciúme, que se assemelha à inquietação dos humanos nas relações de namoro ou amizade. O comportamento deles não tem relação estrita com raça, sexo, nem temperamento. Segundo especialistas, o que se percebe, em geral, é que a culpa pelos ciúmes recai sobre os próprios donos.
A maioria dos relatos de situações de ciúme normalmente se referem a raças que vivem mais dentro de casa, como o poodle, yorkshire, pinscher e cocker, que são mais mimados pela família. Também é muito comum que o sentimento surja quando o filhote é retirado cedo da ninhada, antes dos primeiros 45 dias. É nela que o cão tem a primeira lição de limites. É quando a mãe brinca com ele, late e dá um “chega pra lá”; quando bate e apanha dos irmãos, como explica o zootecnista Paulo Parreira, coordenador do curso de Zootecnia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).“Ele é retirado da ninhada com uma bagagem muito pequena de relações interpessoais, além de ainda ser muito frágil”. Quando chega muito filhote à família, ele costuma ser superprotegido e acaba tendo os limites pouco claros. “Esta proteção extrema pode gerar possessividade, principalmente quando ele deixa de ser atendido prontamente em suas necessidades.”
Agressões
As reações de ciúme são diversas, e podem surgir em forma de isolamento ou até em ataques. “Para cães, o ciúme implica na tomada de uma providência pelos donos, que muitas vezes envolve agressões, se forem mais briguentos”, diz o etólogo Bruno Tausz, especialista em comportamento e psicologia animal, autor do livro Meu Cão, Meu Amigo, pela editora Nobel. Os mais carinhosos comumente ficam tristes e isolados. “Outra situação bem recorrente é o cachorro lamber as patas até sangrarem”, diz a médica veterinária Maria Aparecida de Alcântara, professora da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP).
Mais raramente, o ciúme atinge os gatos, pelo fato de os felinos serem mais resistentes ao contato próximo com o dono. Vai depender do grau da relação entre os dois. No caso deles, o comportamento é menos visível. “Quando eles sentem ciúmes, eles se isolam e dormem por mais tempo” , diz ela.
Um inimigo chamado bebê
O casal Christiane e Bruno Santos está bem mais sossegado com relação ao seu yorkshire Tommy, de dois anos e meio. Mas não foi assim quando o primeiro filho, Lucas, de 9 meses, nasceu. Em julho do ano passado, o cão começou a mudar seu comportamento, para pior. O bichinho tornou-se mais arredio e sempre arrumava uma forma de pedir atenção.
“Ele ficou mais quieto, passou a fazer as necessidades embaixo do berço e em cima do sofá e jogava longe os brinquedos do bebê”, diz a nutricionista Christiane. A médica veterinária Maria Aparecida de Alcântara, professora da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), explica que, na cabecinha do animal, esse tipo de atitude serve para chamar a atenção do dono para a presença dele no ambiente. “Nessas situações eles têm absoluta certeza de que foram abandonados e ficam desesperados, com a sensação de estarem desprotegidos.”
Os pais de primeira viagem confessam que pararam de dar atenção ao animal, não somente pelas obrigações com o primogênito, mas por temerem pela saúde do recém-nascido. “Ficávamos o tempo todo com o bebê no colo. Por medo de contaminação, não pegávamos mais nem o nosso cachorrinho nem as coisas dele”, diz o administrador Bruno. Hoje, mais seguros, reaproximaram-se de Tommy e promovem a socialização do bebê com o animal. “Agora eles brincam, são amigos.”
O medo de contaminação é normal. Mas se o animal for saudável, não há com o que se preocupar, de acordo com Maria Aparecida. “Se é um cão saudável, que está sempre no médico veterinário, é vacinado e faz exames, não tem problema. São muitos os ganhos das crianças com esse contato”. Para evitar algum tipo de doença, basta tomar os cuidados rotineiros de higiene, como lavar as mãos após o contato com o bicho, e evitar que após um passeio ele suba na cama na qual será colocado o bebê. “Os riscos que eles causam não são em nada diferentes daqueles que corremos no simples ato de pegar em uma maçaneta”, exemplifica ela.
Geralmente é o próprio dono que estimula o ciúme no animal de estimação. Veja quais providências você pode tomar
Imponha limites claros no cotidiano do bicho. Não deixe que ele domine.
Procure apoio, como adestramento e leitura de livros sobre comportamento animal.
Não dê carinho demais, nem de menos. Quanto mais a relação for pegajosa, mais passível de ciúme ela é.
Não substitua um ente que perdeu (pai, mãe, filho) por um bicho. Do contrário, se tornará muito dependente e inseguro.
Tenha um cão na família somente se a ideia for aceita por todos da casa.
Ou ele faz parte da família ou não faz.
Fonte: Paulo Renato Parreira, coordenador do curso de Zootecnia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Identifique
Seu cachorro está sofrendo de ciúme? Tire sua dúvida com um teste simples
O cão entra entre você e outro cão ou pessoa para tentar separá-los?
Ele rosna ou briga com outro cão ou pessoa em sua presença?
Lambe as patas até feri-las?
O cachorro manifesta muita tristeza e sinais de isolamento?
Tenta atrair sua atenção latindo quando você está com outra pessoa ou outro cão?
Se a resposta for SIM para pelo menos uma delas, seu cão pode ser ciumento. Converse com seu médico veterinário se há necessidade de que seu comportamento seja melhor acompanhado.
Fonte: Bruno Tausz, etólogo do Rio de Janeiro, especialista em comportamento e psicologia animal, e Maria Aparecida de Alcântara, professora das disciplinas de Etologia e Bem-Estar Animal na Universidade Tuiuti do Paraná (UTP).
Recém-nascido
Veja como proceder antes e depois da chegada do bebê na família, para que não haja um clima de competição
Ande com o carrinho do bebê pela casa, mesmo antes do nascimento dele.
Deixe que o cão sinta o cheiro das roupinhas, para se familiarizar quando o recém-nascido se aproximar.
Permita que o cão chegue perto da criança e a cheire, tomando o cuidado para que ele não faça movimentos bruscos ou arranhe.
Não mude a rotina do cão, impedindo que ele tenha acesso a cômodos normalmente liberados antes da chegada do bebê.
Procure manter o cotidiano de brincadeiras e passeios, conciliando-o com os cuidados direcionados ao seu filho.
Fonte: Maria Aparecida de Alcântara, médica veterinária e professora da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP).
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Última atualização ( Qua, 26 de Maio de 2010 14:59 )
